13.02.10

E assim foi, assim acabou.

 

Depois de tanta luta, tanta mágoa, tudo está terminado. De vez e para sempre.

 

"Já não dá mais"... Já não vale mais a pena, já não há nada a fazer... Não há como continuar a insistir em algo que não tem futuro, que já não tem sequer presente...

Já não há conversas intermináveis, já não há sorrisos, já não há a paixão que fazia o tempo passar a correr... Já não há olhares, daqueles que só nós conhecemos um no outro. Já não há amor...

Só há a mágoa, a discussão, a tristeza. E o hábito... esse não chega para a felicidade...

 

Espero que, de tudo isto, reste uma amizade. Que reste aquilo que, um dia, nos aproximou: afinidades que transpôem aquilo que pode ser visto e sentido pelos outros.

 

Eugénio de Andrade diz o resto... :

 

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

publicado por Vera às 23:45

"Quem se aborrece com a repetição, porque não é capaz de gozar as subtis diferenças que ela nos traz, não conseguirá mais do que repetir o seu aborrecimento, mudem o que mudarem os seus hábitos quotidianos". (Fernando Savater)
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